quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Barbie Cinéfila #1: "Tudo que o céu permite"

Como uma exímia comentarista, aficionada por melodramas hollywoodianos, Barbie veio nos brindar com anedotas cinéfilas e trocar indicações da sétima arte. Esta é uma coluna de postagens que aparecerão por aqui frequentemente, fazendo jus a relação tão íntima que as espectadoras mulheres tinham - nas décadas de 50 e 60 - com os romances em Technicolor e, tendo em vista a figura da Barbie como um reflexo das vivências femininas da época, o paralelo sociológico entre a boneca e elas se torna um poço rico de associações no campo representativo do comportamento, da moda, dentre tantas outras questões atrás de portas fechadas que a chave da imaginação poderá abrir. Barbie veio acompanhada.


Barbie e Ken vieram em noite de gala para nos apresentar esta aquisição Criterion Collection e comentar sobre uma deleitosa experiência fílmica a dois. O filme de hoje é recomendado aos apaixonados. Trata-se de um clássico de Douglas Sirk, intitulado "Tudo que o céu permite", que viu os holofotes da estréia numa noite de inverno em dezembro de 1955, apenas quatro anos antes do lançamento de Barbie numa feira de brinquedos pelos pioneiros Ruth e Elliot Handler. Considerado no seu tempo como apenas mais um filme de lágrimas típico de um cinema feito para mulheres, a obra de Sirk foi revisitada a partir dos anos 70, tendo este na lista de inúmeros de seus filmes cinquentistas considerados seminais na identidade estética de um gênero fílmico, o Melodrama.

"All that heaven allows", 1955.
Criterion Collection ed.

Basta voltar o olhar para a história do mundo para constatar que o melodrama não precisa considerar data de início. Nos tempos bíblicos, narrativas como estas já eram contadas e reinventadas. É a junção instigante entre música e drama que enseja emoção e propósito. A literatura francesa é pioneira pela publicação em jornais de romances que por sua vez não seriam entregues ao público de maneira imediata. Cada edição do jornal comportava um segmento, trechos finalizados por um gancho que iriam instigar o leitor a comprar a edição seguinte. Este tipo de produção seriada ficou conhecida como folhetim

Desde o teatro à televisão, passando pelos jornais e pelas revistas, quase toda forma veiculada de produção ficcional em algum momento precisou recorrer ao folhetim como forma de atrair a atenção de seus espectadores e leitores. Não é à toa que na história de nossa TV temos folhetins de renomes, vendidos para o mundo todo e autores celebres, como Nelson Rodrigues, a protagonizar o cenário artístico do exagero. Esta é a base na fórmula melodramática. Tudo se torna hiperbólico, o exagero é a filosofia do romanesco e o seu propósito é cativar.

A técnica do exagero acompanha a pantomina do teatro francês bourgeios, assim como a técnica de atuação do cinema mudo, imagine que se não tínhamos como nos expressar por palavras, todas as emoções precisariam sair via trabalho corporal e facial. É o que se chama de atuação grandiloquente, bigger than life. É preciso pegar uma história de amor com lágrimas e imaginar ela dobrada, triplicada, quadruplicada em paixão, dor e redenção. Não basta que uma pessoa tente impedir o romance, é preciso que o mundo inteiro se encarregue de colocar barreiras, só assim de fato o clímax atingirá o auge de um precipício.

É isso que Douglas Sirk fez com seu filme. Jane Wyman e Rock Hudson vivem um casal cuja paixão é condenada por uma sociedade mesquinha e por filhos mimados. A personagem de Wyman é uma viúva que tem tudo que o dinheiro pode comprar, inclusive um jardineiro gostoso, alto, romântico, cuidadoso com as plantas e que vive uma ideologia pró-natureza. Eles convivem há algum tempo, desde o momento em que o pai deste jardineiro falece e o filho toma o lugar do pai. O amor desperta assim como a árvore citada no filme, dádiva natural que cresce apenas em lares que possuem amor. O cinema sirkiano é simbolista, conta com um uso econômico de palavras, faz utilidade de luz, sombra, música, enquadramento e movimento de câmera para reforçar a condição de seus personagens. Barbie e Ken deixam aqui o seu selo de aprovação, uma sessão que provoca reflexão sobre o nosso sentimento no mundo, a quem nos entregamos e o que sentimos.


Em grande estilo, Barbie Swirl Ponytail veste Enchanted Evening [#983] e Ken Painted Hair veste Victory Dance [#1411] para a apresentação mais do que solene da edição que a famosa Criterion Collection lançou ano passado para esta obra-prima sirkiana. Ambas dolls não são difíceis de encontrar reproduzidas pelo gift set Double Date, assim como o #983 acompanha a edição repro. 1962 da coleção My Favorite Barbie e #1411 acompanha a edição repro. histórica para 1961 do primeiro Ken. Esta Swirl Ponytail também foi lançada sozinha pela coleção My Favorite Barbie, uma coleção extremamente recomendada para quem curte colecionar repros. As artes Vintage para estes outfits seguem logo abaixo, como foram introduzidos nos booklets dos anos 60.

Uma coisa a se notar é que a escolha das roupas aqui dizem muito a respeito dos anos 50, um vestido baby pink com uma cauda enorme, drapeado na cintura com uma flor e acompanhado por uma pele branca que envolve a área dos seios para a Barbie que protagoniza o post. Para ele, Victory Dance, camisa e calças brancas, meia, gravata e colete Red Passion, toque final de paletó azul marinho com detalhe bordado e sapatos em p&b.

Ambas fashions remetem ao universo jovem, como aos bailes de formatura. A célebre prom night chega com promessas de amores pueris e escapadas atrevidas de uma moral católica rígida, transposta socialmente muitas vezes em discriminação e opressão social. Assistindo ao filme, fica claro logo no início a importância que os filhos, jovens sempre alegres e bem vestidos, exercem no sofrimento de sua mãe e representam, paradoxalmente, figuras doces como sugere o traço no desenho das dolls ~ ver imagem abaixo. Os adolescentes descobrem o amor e as suas complicações, pensam que a vida não poderia ser mais difícil até descobrir que sim. Caso da filha que em determinado momento tem um breakdown ao confirmar que a pressão exercida por ela e seu irmão impediu a mãe de consumar seu amor com o jardineiro.

A escolha barbística do post diz respeito à indumentária jovial da época, mas isso no que corresponde a uma família burguesa de potencial econômico. Douglas Sirk é sempre um bom momento para se admirar belos casacos de pele, sem perder o senso irônico crucial de que aquela vestimenta também representa a morte de alguma coisa, a decadência da estrutura familiar e uma vida aparentemente abastada que esconde desespero.





Quando o amor desperta para Wyman e Hudson, o pesadelo começa. A repressão dos filhos, as picuinhas dos vizinhos. Todos achavam um horror o amor em questão e censuram a diferença de idade entre eles sem ao menos considerar a felicidade do casal. Temáticas como esta que giram em torno do sofrimento pelo amor e que são um prato cheio para atuações femininas emblemáticas engendraram nos anos 40 e 50 uma fase de filmes chamados pelos críticos de "Women's Pictures". A emergência desses filmes teve lugar ao longo da segunda guerra mundial, quando o público dos cinemas era dominado por mulheres. 

Imaginar este cenário que arde em paixão, e cuja tensão principal de casais separados perdurou como mote nas décadas seguintes, desvinculado do universo barbístico é praticamente impossível. Basta ver como que a boneca foi introduzida em 1959 por meio de anúncios televisivos e, principalmente, isso vai ser percebido com mais força com a introdução de Ken pela Mattel em 1961, o slogan dizia que ele veio para ser a paquera da Barbie com o qual ela poderia ir à praia, participar de sociais, tomar um shake na praça e isso terminaria nalgo que sabemos bem o que é, a trilha do sinos nupciais ecoavam ali na mente de inúmeras crianças. A ideia do casamento e da boneca apaixonada era reforçado desde cedo para o mundo de Barbie, assim como valores de amizade e família - Skipper, a irmã mais nova de Barbie, a melhor amiga Midge e o best-buddy Allan, apareceriam no verão de 1964.


Para uma obra tão repleta de sutilezas, o lançamento da Criterion para o filme inclui blu-ray e dois discos em DVD, o filme restaurado em 2K com transferência do negativo em 35 mm, além de uma masterização que fez correções de manchas e lacunas de som. O disco de EXTRAS em DVD inclui um documentário de Rock Hudson, inúmeras entrevistas com Sirk, áudio de comentários e trailer. Confira abaixo o vídeo feito por mim especialmente para mostrar a magnificência no cuidado com o livreto exclusivo que acompanha a edição, inclui os textos de Laura Mulvey e Rainer Werner Fassbinder, ambos grandes admiradores sirkianos.



"I must say,
sometimes I've really loved
the things I've done."
Douglas Sirk



A tribute to "Douglas Sirk" & to the flamboyant world of "vintage Barbie".
S. Brígida's Collection®

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